13 anos sem Carlson Gracie

Há treze anos, o mundo perdia Carlson Gracie; confira nossa homenagem ao grande mestre.

-Carlson formou um exército de lutadores e treinadores

O Legado de Carlson Gracie

Carlson Gracie foi um dos representantes mais importantes de sua família. Além de ter sido o principal lutador da sua geração, Carlson se tornou um excelente treinador, formando exércitos que dominaram o circuito do Jiu-Jitsu durante anos e que no MMA tiveram o mesmo sucesso. Mas o filho mais velho de Carlos Gracie não formou apenas ótimos lutadores. Seus ensinamentos influenciaram praticamente toda a geração atual de grandes treinadores, que comandam as principais equipes de MMA do planeta. Na matéria a seguir, mostraremos o tamanho da importância do Grande Mestre para o esporte brasileiro, e porque ele é reverenciado por todos aqueles que conviveram com este incrível personagem das lutas.

O Fenômeno Carlson Gracie

Filho mais velho do Grande Mestre Carlos Gracie, Carlson se tornou um dos membros mais importantes de sua família. Começou nos anos 1950 como lutador, mas só passou a ser reconhecido como o melhor do Brasil naquela época em 1955, quando venceu Waldemar Santana e vingou a famosa derrota de seu tio Hélio. A partir de então, Carlson reinou absoluto nos anos seguintes.

Mas foi mesmo como treinador que ele deu sua maior contribuição para o mundo das lutas. Carlson transformou o Jiu-Jitsu, um esporte que até os anos 1970 era considerado de elite, numa luta popular graças à sua academia em Copacabana, na rua Figueiredo de Magalhães. Ali se formou um verdadeiro quartel-general de cascas-grossas dos mais variados tipos: pobres, ricos, malucos, intelectuais. Todos eles recebiam o mesmo tratamento do Mestre e, em troca, retribuíam com aquilo que Carlson mais gostava: títulos.

“A Academia Carlson Gracie sempre vencia e por larga margem de pontos, sendo que a expressão mais correta para aquelas vitórias foi mencionada pelo seu próprio pai, o Mestre Carlos Gracie, que disse aos outros familiares donos de academias: “os alunos do Carlson são todos guerreiros e os adversários são somente lutadores”. Este era o diferencial da equipe”, relembra Amaury Bitetti, bicampeão mundial absoluto de Jiu-Jitsu.

E foram muitas conquistas. Sob seu comando, a Academia Carlson Gracie venceu os principais campeonatos que disputou entre 1975 e 1994, de faixa branca até faixa-preta. Carlson formou não só grandes lutadores, mas também ótimos treinadores, que hoje comandam equipes importantes do MMA como Nova União, Brazilian Top Team, American Top Team, Team Nogueira, entre outras. Carlson foi, sem dúvidas, um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do Jiu-Jitsu e do MMA no Brasil, com tantos talentos que formou e influenciou.

“Da família, ele era o único que ensinava tudo e para qualquer um, enquanto o resto da família era mais reservada. Ele tinha muito respeito pelo aluno e não se negava a ensinar. Nós tínhamos um grande material humano e nosso treinamento era voltado para a competição, diferente dos demais, que prezavam muito para a defesa pessoal e o treinamento mais light do Jiu-Jitsu”, explicou seu faixa-preta Fernando Pinduka.

Ele ainda se tornou uma das figuras mais queridas no mundo das lutas, não apenas por suas qualidades como lutador e treinador, mas também como ser humano. Capaz de tirar a roupa do corpo e dar pra um fã, permitir que um aluno com problemas financeiros não só treinasse como morasse em sua academia, bem como criar apelidos e gírias num estalar de dedos, Carlson conseguiu, com seu carisma inigualável, a admiração de membros de todas as academias.

“Seus alunos eram meus mais implacáveis adversários, mas sempre tivemos uma relação de muito carinho e admiração”, reconhece Fábio Gurgel, um dos líderes da Alliance.

No dia 1º de Fevereiro de 2006, o mundo recebeu a triste notícia do falecimento deste verdadeiro mito do esporte. Morando em Chicago, Carlson foi internado com problemas renais que evoluíram para uma infecção generalizada e levou a uma parada cardíaca fulminante. Nosso esporte ficou carente desta figura tão importante e querida, mas seus ensinamentos perpetuarão por várias gerações.

Convicção e liderança

Carlson é considerado o melhor treinador de todos os tempos por todos que treinaram com ele não é a toa. O Mestre tinha uma maneira própria de ensinar que ganhava a confiança de todos seus alunos, não só pela convicção no ensinamento, mas também pelos resultados que conquistava.

“O Carlson tinha uma forma de conduzir sua “manada” onde ele ganhava o respeito de todo mundo. Ele mostrava as posições mais simples e eficazes, e o mais importante é que todo mundo tinha muita confiança nele. Vários de seus alunos conseguiram absorver essa forma de ensinar dele, com a mais absoluta certeza do que está falando, e isso acaba dando certo”, explicou Bebeo Duarte, faixa-preta formado pelo Mestre, “O Carlson tinha tanta convicção no que ensinava que a gente ia e fazia, não questionava, e dava certo. Isso era graças à experiência dele”.

Bebeo relembra ainda um dos momentos marcantes vividos ao lado de Carlson, onde a liderança do Mestre foi mais uma vez exercida, em uma situação atípica – e até mesmo exagerada – mas sequer questionada por todos aqueles que o seguiam.

“Esse caso pra mim foi muito especial, foi no Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu, no dia 12 de junho de 1993, foi no dia que casei. Não fui lutar, mas durante o dia eu estava no campeonato”, relembra Bebeo, “Na luta do Daniel Simões com o Ray Diogo, o Robson Gracie avisou que ia arbitrar a luta, e todo mundo sabia que ele tinha um carinho muito grande pelo Daniel. O Carlson falou que não iria aceitar, mas o Robson disse que ia arbitrar mesmo e queria saber o que o Carlson iria fazer sobre isso. Foi então que o Carlson chamou a galera e mandou colocar quatro de seus atletas em cada tatame e parou o campeonato. Até eu que ia casar e não fui lutar, obedeci. Quando os caras viram, tinham quatro cascas-grossas sentados em cada tatame parando o campeonato. Isso durou até quando o Carlinhos chegou ao Robson pra dizer que ele não deveria arbitrar aquela luta. O combate acabou não acontecendo”.

DNA de Carlson Gracie

Várias das principais equipes do mundo de MMA foram formadas com o “DNA” de Carlson, como a Brazilian Top Team, American Top Team, Nova União, Team Nogueira, Vitor Belfort e até mesmo a Chute Boxe, cujas primeiras aulas de Jiu-Jitsu foram aprendidas com um de seus discípulos (Alexandre Penão).

“Você vê aí o legado que o Carlson deixou. Para mim, foi o cara mais importante da história do MMA. Veja o Dedé arrebentando aí com a Nova União, a Brazilian Top Team, a American Top Team, o Vitor Belfort, o Minotauro e Minotouro, que vieram do De La Riva, que veio da raiz Carlson. Ele conseguiu formar tantos lutadores e professores… As pessoas não podem esquecer dele. Se não fosse por ele, nós não estaríamos aqui hoje”, reverenciou Ricardo Libório, líder da ATT.

O herdeiro do mestre

Carlson Gracie teve três filhos: Rosane, Karen e Carlson Gracie Jr., principal responsável por cuidar das academias do pai. “Carlsinho” nasceu no Rio de Janeiro em 1969, e começou a ter aulas de jiu-jitsu com pai aos 3 anos de idade. Faturou títulos no jiu-jitsu, e empatou nas duas lutas que fez no Vale-Tudo.

Atualmente, mora em Chicago, onde administra uma das cerca de 80 academias Carlson Gracie espalhadas pelas Américas do Norte, Central e do Sul, Austrália e na Ásia, além de projeto de expansão para a África. Ele também é responsável por autorizar que uma academia leve o nome “Carlson Gracie”.

“Se não fosse meu pai, o jiu-jitsu e o MMA não estaria onde estão. Deu oportunidade de treinar para pessoas que não tinham condições financeiras, e divulgou o esporte, tinha um time grande, o melhor do jiu-jitsu, que aceitou desafios de todas as modalidades. Se você procurar no UFC hoje, muitos são ligados direta ou indiretamente ao meu pai. E mesmo os que não estão nos grandes eventos, vivem do jiu-jitsu, é uma profissão. E quem quiser fazer parte do grupo, seja bem-vindo”.

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